Sooty's Space Station

Saturday, May 29, 2010

Japão – take 2

Demorei imenso tempo para escrever estes posts porque muito honestamente não sabia por onde começar...

Como podia escrever sobre umas coisas e não referir outras? O Japão é feito de detalhes que constantemente transcendem o estatuto de mero pormenor e assumem grande importância. São estes pormenores que nos encantam, na sua delicadeza, na sua surpreendente construção.

Até que alguém que partiu à descoberta de outro mundo igualmente avassalador (África) me esclareceu: “Há coisas que é preciso (v)ir para sentir.”

Assim sendo, aqui ficam uns relatos soltos:


Um mundo à parte


Ir ao Japão é tão ou mais assombroso do que ir ao espaço (quero lá saber que achem este comentário exagero). Não é pela distância, é pela diferença de costumes, de hábitos, da maneira de pensar e entender e no jeito de fazer as coisas do dia-a-dia. Mais do que um modo de vida meramente exótico, é requintado, sofisticado e, ao mesmo tempo, singelo e humilde.


Ao chegar à porta do voo para Narita, comecei logo a mergulhar em tudo isso que nos distingue daqueles humanos do outro lado do mundo, resguardados na sua ilha mágica. Os hábitos de se tirar os sapatos e sentar de pernas cruzadas. A alegria de uma anciã ao descobrir um pormenorzinho enquanto se entretém observando até nos chamarem para o voo.

A massa compacta de colegiais todos de farda mas cada um com um detalhe que confere a uma farda supostamente uniforme um estilo inequivocamente individual, uma camisa, uns sapatos, uma pregadeira ou fita.


Lei de Murphy


Quando tiveres de pegar em pauzinhos frente a um japonês, não vais conseguir manuseá-los bem... principalmente se tiveres de segurar camarões do tamanhão de bananas do Equador...


Regresso ao Pacífico


As férias são sempre poucas, já se sabe, e talvez seja por isso que a maior parte das pessoas não volta a sítios que tenha já visitado. Mas eu cá gosto muito de voltar aos sítios que me ficaram na memória, sim...

Sabe-me bem chegar a qualquer lado e reconhecer algumas caras e alguns sítios ou ver o que mudou. Fazê-lo na companhia de amigos então sabe-me pela vida :)

Por isso, fazia todo o sentido voltar a Enoshima e sentir o vento forte do mar, daquele vento que intimida mas que nos faz sentir vivos, e depois regressar a Kamakura, aconchegada na baía e na serenidade das suas casinhas baixas, jardins e templos.



Recantos na vizinhança


Enquanto esperava pelo resto da gangada e o nosso anfitrião ficava a descansar, fui dar uma volta pela zona de Ichigaya. Como não tinha mapa, limitei-me a seguir pela rua principal a partir da estação de metro até que reparei numa esquina bem garrida numa paralela e fui dar com uma paralela estreitinha com as casas enfeitadas, quase tapadas, com vasos de flores.


Meti por aí adentro, maravilhada com a capacidade dos japoneses de criar um jardim em qualquer bocadinho de espaço vago e acabei por ir dar a um parquezinho.

Sentei-me então aí um bocadinho para ver o que me tinha calhado no almoço tirado obviamente ao calhas das prateleiras de uma loja de conveniência. No entanto, “a sorte protege os audazes” e descobri que a salada de fruta no Japão não vem em calda, vem em gelatina, nhami!!

Quando levantei os olhos da minha genial sobremesa, pus-me a olhar com mais atenção para a praceta onde me alapara.

Meio jardim, meio parque infantil, ainda que escondidinho pelos prédios altos da rua principal, parecia ser um cantinho bastante frequentado, por homens engravatados que vinham ali esticar as pernas e fumar um cigarro, por operários de obras que ali almoçavam e liam o jornal, por crianças que desbundavam o escorrega.



Neons


Roppongi será a zona mais popular para sair à noite mas é muito descaracterizada pelos típicos clubs americanos com popzinha dançável fabricada e batida. Achei Shinjuku muito mais interessante, mais genuína, com ruelas de tascos e bares e karaokes preenchendo os muitos pisos de prédios altos mas estreitinhos...

A minha descoberta preferida foi sem dúvida um sítio escondido.

Ia entretida na conversa com um japonês que também adora Regina Spektor e não prestei bem atenção ao caminho. Só abri os olhos mesmo quando subitamente no meio de tanto prédio, qual gotinha de paisagem bucólica, surge um shrine envolto em cerejeiras em flor - que local lindo, lindo, mágico! E depois logo aí está a porta para o Club Wire, numa cave, e as suas míticas noites indie :) Boa música e um ambiente super castiço, tipo ajuntamento de amigos em que os djs ora iam rodando ora iam participando no set de outro dj na maior cavaqueira... Fantástico!



À descoberta de Kurama


Em jeito de poema japonês:

Ninose
Aninhada num vale
Um quadro não seria mais bonito

Kyoto é magnífica, mesmo com as hordas de turistas. Foi bom ter começado pelo monte Kurama, apesar de se ter tornado uma aventura bem maior e bem mais puxada. Acreditámos na energia universal ;) e deixámo-nos ir.

Igualmente universal é a linguagem do cansaço. Enquanto parávamos esbaforidos, passava sempre alguém que nos dizia alguma coisa e cujos gestos nos mostravam o seu cansaço. Estes breves diálogos terminavam sempre com sorrisos ou gargalhadas porque apesar de não falarmos a mesma língua mesmo assim conseguíamos comunicar.


Gente irresistivelmente doce


Há uma coisa extraordinária na maneira de ser dos japoneses. Podem não falar inglês, podem não perceber aquilo que estamos a dizer, mas não nos deixam enquanto não puderem ter ajudado de alguma forma.

Na estação de Kyoto, duas raparigas que também não sabiam onde ficava o posto de turismo foram perguntar a um funcionário da estação. No Ueno, à procura de um templo, pedimos ajuda a um velhote, que por sua vez pediu ajuda a dois jovens que trabalhavam numa bomba de gasolina ali ao lado, e até um cliente saiu do carro para nos ajudar.

São terrivelmente educados, um reflexo talvez de uma cultura impregnada de rituais, preceitos e regras. Mas talvez o socialmente correcto os faça intuitivamente prestar mais atenção aos outros, o que os torna pessoas extremamente simpáticas e atenciosas, que, por exemplo, ao ver-nos com muita fome, se dispõem a servir-nos mesmo já tendo passado um pedaço para lá do horário de almoço.


Talvez por tenderem a prestar atenção aos outros, ficam genuinamente surpreendidos e enternecidos quando somos nós a prestar atenção a eles, e a partir daí revelam-se extremamente calorosos.


Uma barata tonta no meio das formiguinhas

Todos os japoneses ao fim de cinco minutos de conversa com um ocidental comentam: “não achas que Tóquio tem demasiada gente??”.



Nós, bem, encolhíamos os ombros. “er... ora bem, nós somos 10 milhões espalhados por um país, vocês são 12 milhões numa cidade... estamos tão desenquadrados que nem sequer conseguimos ter uma noção de dimensão!!” ...

As estações de comboio e/ou metro são autênticas baixas citadinas com todos os serviços e lojas... menos, claro, postos de turismo que seriam bem úteis. Há apenas três: em Shinkuju, no Ueno e na estação de Tóquio. Em Shibuya, não há posto de turismo, mas, pasme-se, há uma tabuleta que diz “Toursit Office ↑”. Assim, com gralha e tudo.

Em frente... era a saída. Hm, terei visto mal, se calhar a seta era para o outro lado... Voltei para trás até à tabuleta. Não, é em frente... Para a frente então! Hm, mas é a saída e não há nada em redor a assinalar um posto de turismo...

Hm, se calhar é em frente mas no corredor e não olhei bem para os lados. Voltei atrás até à tabuleta olhando para ambos os lados e não se avistava o raio do posto. Andei novamente até à rua e não encontrei. Cheguei à rua e procurei nas lojas do lado esquerdo e do lado direito. Nada... Atravessei a praça. Nada. Dei a volta à praça. Nada.

Puxei pelos cabelos, regressei à tabuleta, refiz o percurso e parei no primeiro guichet que encontrei e pertencia à JR, a principal companhia ferroviária. Apontei para a tabuleta e perguntei onde ficava o posto de turismo. A rapariga respondeu de gás: “Não há posto de turismo aqui.” E claro, bem ao jeito japonês, tentou ajudar:
“Mas o que precisa?”
“De um mapa.”
“Da estação?” – não contava mesmo com esta resposta...
“Não! De Tóquio inteira!!”
“Ah, temos aqui uns guias de bolso com mapa. Serve?”

E esta hein?...


Peixeirada a sério


Tóquio apesar da barafunda é uma cidade bastante segura. Pode-se inclusivamente ir a Kabuki-cho para um copo sem problema... desde que obviamente não tenhamos negócios com a yazuka ;)

Provavelmente o local mais intimidante de Tóquio será mesmo o mercado de Tsukiji, o mercado abastecedor. As pessoas não são agressivas, apesar dos muitos mirones por ali que inevitavelmente estorvam um bocado, mas a azáfama é tão grande que assusta. O lufa-lufa de lambretas, empilhadores e carrinhos de mão era tal que era muito difícil (e perigoso) atravessar a estrada!


E por que raio valia a pena ultrapassar aquela barafunda? Para ver o enorme mercado do peixe (este hábito herdei da minha tia que gosta de cheiricar tudo numa praça) :)

1 Comments:

At Tuesday, June 01, 2010 3:09:00 AM, Blogger I_miss_my_lung said...

A primeira foto está o auge!! Anyway, boa caracterização do Japão :)

 

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